Lun. Giu 22nd, 2026

Pelé, O Rei do futebol: um craque lendário e o primeiro mito universal

A história infinita de Pelé: da ginga ao Santos, até as três Copas do Mundo com o Brasil.

«Você é a exceção que confirma a minha regra. Você é a única celebridade que, em vez de durar quinze minutos, durará quinze séculos».

Quando Andy Warhol pronunciou essas palavras em 1977, o mundo já conhecia o mito. Por quase vinte anos, seu sorriso radiante iluminou as capas brilhantes dos jornais, os palcos televisivos e os estádios de todos os continentes. Ele havia vencido três Copas do Mundo, marcado mais de mil gols e transformado o futebol em um espetáculo global. Mas o pai da Pop Art não estava falando de um campeão esportivo. Ele estava falando de um fenômeno cultural.

Muito antes das redes sociais, muito antes dos patrocínios bilionários e muito antes que o conceito de marca pessoal entrasse na linguagem comum, o mundo já havia conhecido o primeiro atleta verdadeiramente universal. Pelé.

O NASCIMENTO DE UMA LENDA

No início, era apenas Dico, o apelido pelo qual seus pais o chamavam carinhosamente. Nascido em 23 de outubro de 1940 em Três Corações, uma pequena cidade no estado de Minas Gerais, ele passou a infância na pobreza, entre sacrifícios, sonhos e bolas improvisadas.

Mas será com outro apelido que ele se tornará um mito universalmente conhecido.

“Quando eu tinha três anos, meu pai jogava no Vasco de São Lourenço – contaria em sua autobiografia de 2006 -. Ele me levava aos treinos e eu ficava fascinado pelo nosso goleiro, Bilé. A cada defesa dele, eu gritava: ‘Bravo Bilé!’. Muitas vezes, porém, eu pronunciava errado o nome para ‘Pilé’ ou ‘Pelé’. Assim, em certo momento, os garotos mais velhos começaram a me chamar de Pelé”.

No início, ele não gostou nada. Para seus ouvidos, soava como uma zombaria. Ninguém poderia imaginar que aquelas quatro letras, nascidas de um erro de pronúncia no campinho de uma cidade do interior brasileiro, se tornariam um dos nomes mais célebres do século XX.

Décadas depois, o presidente Lula encontraria a síntese perfeita: “Pelé, quatro letras que uniram o Brasil ao mundo”.

Para entender como isso foi possível, é preciso voltar a Bauru, no estado de São Paulo, para onde sua família se mudou em 1946. É lá que cresce Edson Arantes do Nascimento, filho de João Ramos do Nascimento, o Dondinho, e de Celeste Arantes, com seus irmãos mais novos Jair, o Zoca, e Maria Lucia. De um lado, o pai, ex-atacante talentoso cuja carreira foi interrompida por uma grave lesão no joelho; do outro, a mãe, severa e protetora, determinada a garantir aos filhos uma vida mais estável do que o futebol conseguiu oferecer ao marido.

Se Dondinho lhe transmite o amor pela bola, Dona Celeste freia, insistindo na importância da escola e do trabalho.

O pai trabalha como porteiro de hospital e ganha apenas o suficiente para sustentar a família, a mãe cuida da casa e da educação dos filhos. O pequeno Dico não gosta muito de estudar: limpa sapatos, ajuda como pode seus pais e brinca na rua com os amigos de infância, usando bolas improvisadas feitas de panos e papel.

Será Dondinho quem lhe ensinará os fundamentos do futebol. Em 1950, quando o Brasil perde a Copa do Mundo em casa, derrotado pelo Uruguai no famoso Maracanazo, Pelé tem apenas nove anos. Ele vê o pai chorar. É uma cena que ele nunca esquecerá. Ele se aproxima dele e faz uma promessa: um dia vencerá a Copa do Mundo com o Brasil.

Oito anos depois, essa promessa será cumprida.

A GINGA QUE O FEZ O REI

Havia algo que tornava Pelé diferente de todos os outros jogadores. Os brasileiros têm uma palavra para descrevê-la: a ginga. Um termo difícil de traduzir, pois não indica um gesto técnico preciso. É uma maneira de se mover, de manter o equilíbrio e superar obstáculos com fantasia e improvisação. Deriva da gíria da capoeira, a antiga dança-luta simulada praticada pelos escravos africanos no Brasil como forma de resistência física e cultural ao domínio dos portugueses, e é o seu passo base aplicado ao futebol bailado.

Pelé foi sua encarnação mais completa. Ele não corria simplesmente: gingava. Ele não driblava apenas: lia antecipadamente a direção a seguir. Parecia antecipar a bola em vez de persegui-la, transformando cada ação em algo imprevisível para os adversários. Nas mudanças de direção, nos dribles de corpo, nas torções súbitas, nos toques de calcanhar e em seus irresistíveis saltos acrobáticos, emergia aquela combinação única de graça e força que torna seu futebol imediatamente reconhecível em qualquer canto do planeta.

Seus cabeceios não eram simples elevações atléticas. As bicicletas, as semibicicletas e os chutes de voleio pareciam desafiar a gravidade antes mesmo dos adversários. Nele conviviam a leveza do dançarino e a força do lutador, o instinto do garoto criado nos campinhos de Bauru e a inteligência do campeão destinado a conquistar o mundo.

Anos depois, Jorge Valdano tentaria descrever essa sensação.

«Seu corpo se movia em sintonia com um ritmo atávico e negro, que se adaptava harmoniosamente ao movimento caprichoso da esfera. Suas qualidades musculares lhe permitiam realizar qualquer proeza; nunca saberemos, por exemplo, se Pelé subia da terra ou descia do céu para acertar a bola com a testa, com o goleiro como vítima e a rede como destino final».

OS PRIMEIROS PASSOS COM O SANTOS E O BRASIL

Dondinho percebe rapidamente o talento do filho. Aos treze anos, ele o leva para as categorias de base do Bauru, treinadas por Waldemar de Brito, ex-jogador da seleção brasileira e descobridor de talentos. É ele quem primeiro intui o potencial extraordinário de Pelé e direciona seu desenvolvimento.

Suas performances rapidamente atraem a atenção dos clubes mais importantes. Entre eles, está o Santos. Após algumas hesitações iniciais de Dona Celeste, Waldemar de Brito consegue convencer a família e acompanha o garoto para um teste, que ele supera brilhantemente.

Transferido para o alojamento da Vila Belmiro, Pelé queima etapas. Em 7 de setembro de 1956, ele estreia no time principal em uma amizade contra o Corinthians de Santo André e marca imediatamente o primeiro de seus 1.281 gols totais. No ano seguinte, conquista firmemente um lugar entre os titulares e, em 7 de julho de 1957, estreia com a camisa do Brasil, marcando novamente na derrota por 2 a 1 para a Argentina.

A trajetória do garoto de Bauru está apenas começando, mas a sensação já é clara: o futebol brasileiro encontrou seu novo fenômeno.

O MUNDO AOS PÉS DE PELÉ

O mundo o descobriu no verão de 1958. Ele tinha dezessete anos, um sorriso tímido e um talento que no Brasil prometia maravilhas. Mas quando a Seleção desembarcou na Suécia, Pelé ainda não era o protagonista que a história entregaria à eternidade.

Antes da Copa, ele sofreu uma lesão no joelho e chegou ao torneio longe de sua melhor forma. O técnico Vicente Feola decidiu inicialmente confiar em José Altafini, o futuro Mazzola do futebol italiano. Nas duas primeiras partidas contra Áustria e Inglaterra, o jovem fenômeno do Santos ficou no banco.

Foi uma decisão prudente. E talvez inevitável. Mas o talento de Pelé era grande demais para ficar confinado entre os reservas por muito tempo.

Feola intuiu que era hora de arriscar e, em vista do decisivo confronto contra a União Soviética, redesenhou o ataque do Brasil: entrou Pelé no lugar de Altafini, e Garrincha. Foi uma das decisões mais importantes da história da Seleção.

A partir daí, a Copa do Brasil mudou de cara. Nas quartas de final contra o País de Gales, Pelé marcou o gol que classificou a Seleção. Na semifinal, ele dominou a França do artilheiro Just Fontaine com um hat-trick. Depois, veio a final contra os donos da casa, a Suécia.

Naquela tarde em Estocolmo, o garoto de Bauru deixou de ser uma promessa e se tornou uma lenda.

No placar de 3 a 1, ele dominou a bola na área, a levantou sobre o defensor e a chutou de voleio antes que tocasse o chão. Uma jogada que resumia o que ele se tornaria nos anos seguintes: fantasia, coragem, instinto e naturalidade. No final, ele se repetiu, marcando o quinto gol sul-americano com um cabeceio espetacular em contra-ataque que não deu chance ao goleiro.

Era a ginga que ele havia aprendido nas ruas do Brasil, o futebol transformado em arte. O Brasil venceu por 5 a 2 e conquistou sua primeira Copa do Mundo. Ao apito final, Pelé caiu em lágrimas no gramado. Ao seu redor, os companheiros festejavam, enquanto do outro lado do oceano, um país inteiro se reconhecia finalmente campeão mundial.

A promessa ao pai Dondinho foi cumprida. Nasceu O Rei.

Nos anos seguintes, o Santos se tornou o veículo pelo qual o planeta aprenderia a conhecer Pelé. Hoje, estamos acostumados a ver todos os jogos na televisão. Nos anos sessenta, não era assim. Para assistir ao espetáculo, era preciso estar presente.

Assim, o Santos começou a viajar. África, Europa, Ásia, Oriente Médio, Américas. A Inter de Angelo Moratti tentou contratá-lo, depois a Juventus de Umberto Agnelli, mas o Peixe sempre se opôs à transferência. Onde quer que Pelé fosse, os estádios se enchiam. As pessoas queriam vê-lo em campo, mais do que a equipe em si. O camisa 10 alvinegro estava se tornando um mito global.

Mas o Santos não era apenas uma companhia itinerante que levava espetáculo aos cinco continentes. Era também uma máquina quase perfeita. Com Pelé em campo, conquistou 26 troféus: 10 campeonatos estaduais, 6 títulos (5 Taça Brasil e um Torneio Roberto Gomes Pedrosa) e 5 Copas nacionais, duas Copas Libertadores consecutivas, duas Copas Intercontinentais e uma Supercopa dos Campeões Intercontinentais, consolidando-se como uma das equipes mais fortes do planeta.

Em 1962, no Chile, Pelé venceu seu segundo Mundial com o Brasil, embora como espectador por uma lesão na adutora sofrida no segundo jogo contra a Tchecoslováquia, que o afastou pelo resto do torneio. Pior ainda foi em 1966, quando foi vítima de faltas duríssimas que prejudicaram seu desempenho, e o Brasil foi eliminado na fase de grupos.

Com o Santos, ele continuou a vencer. E a marcar. Disputou ainda centenas de amistosos internacionais. As pessoas pagavam o ingresso para assistir ao seu show. E ele retribuía com um repertório inesgotável de dribles, túneis, sombreros, cabeceios e gols espetaculares.

Foi nesses anos que nasceram muitas das lendas ligadas ao seu nome. A mais célebre conta que, durante a guerra civil nigeriana, uma trégua foi declarada para permitir que todos assistissem a um de seus jogos. Nenhum jogador de futebol jamais fora tão famoso.

Em 19 de novembro de 1969, chegou um dos momentos mais icônicos de sua carreira. O milésimo gol.

Há semanas o Brasil fazia a contagem regressiva. Cada partida se tornava um evento nacional. Quando a ocasião surgiu no Maracanã, um pênalti concedido contra o Vasco da Gama, o tempo pareceu parar. Pelé foi para a marca, tomou distância e marcou.

Seguiu-se um rugido. O campo foi invadido. Fotógrafos, jornalistas, cinegrafistas e torcedores transformaram aquele momento em uma celebração coletiva. Mas o que tornou aquela noite realmente especial foram as palavras do protagonista.

Neste momento de grande emoção para mim, faço um apelo para que ninguém se esqueça das crianças pobres, dos necessitados e das obras de caridade. Defendamos os pobres, defendamos as crianças que precisam. Ajudemos a todos, por amor de Deus”.

O campeão deu lugar ao homem. O ídolo popular se transformou definitivamente em um símbolo nacional.

O ÚLTIMO CAPOLAVORO: A COPA DE 1970

O último grande capolavoro futebolístico de Pelé chegou no ano seguinte. México 1970. Para muitos, o Brasil mais forte de todos os tempos, com Jairzinho, Gérson, Tostão, Rivelino e, é claro, Pelé.

Na final contra a Itália, consumou-se uma das imagens mais icônicas da história do esporte. Aos 18 minutos, Rivelino lançou um cruzamento da esquerda para o segundo poste, O Rei saltou sobre Tarcisio Burgnich e cabeceou a bola com uma suspensão irreal, marcando o goleiro Albertosi.

Burgnich, um dos marcadores mais fortes da época, nada pôde fazer: “Antes da partida, eu dizia a mim mesmo: ele é feito de pele e ossos como todos. Depois, percebi que não era assim”.

Como escreveria Valdano, observando aquele cabeceio, era realmente impossível entender se ele estava subindo da terra ou descendo do céu.

Boninsegna empatou, mas os verde-amarelos golearam até o placar final de 4 a 1. Pelé também contribuiu para a jogada que levou Carlos Alberto ao quarto gol, considerado por muitos um dos mais belos da história das Copas. Ao apito final, ele conquistou sua terceira Copa do Mundo, um recorde que até hoje ninguém conseguiu igualar.

Mas, acima de tudo, foi a consagração definitiva de uma lenda mundial. Para todos, o camisa 10 do Brasil havia se tornado O Rei.

Pouco mais de um ano depois, em 18 de julho de 1971, diante de mais de cem mil espectadores no Maracanã, ele vestiu pela última vez a camisa da Seleção. Ele já havia vencido tudo. No entanto, ninguém estava realmente pronto para se despedir dele.

Quando deixou o campo sob aplausos, ele tinha apenas trinta anos e era o maior artilheiro da história da Seleção com 77 gols em 92 partidas. Seu recorde duraria mais de meio século, antes de ser superado por Neymar em setembro de 2023.

ALÉM DO FUTEBOL

Em 1977, quando Warhol o retratou em Nova York, a transição de campeão para ícone já estava completa. No início dos anos setenta, ele começou a sentir o peso de uma vida passada sob os holofotes. As turnês intermináveis, as expectativas de um país inteiro e a atenção do mundo inteiro haviam transformado o futebol em uma responsabilidade permanente. Em 1974, ele anunciou sua aposentadoria do Santos, convencido de que sua história em campo havia chegado ao fim.

Durou pouco. Um ano depois, ele aceitou a proposta do New York Cosmos na NASL norte-americana e empreendeu a última missão de sua carreira: levar o futebol para o coração dos Estados Unidos.

Em 1977, também chegou o momento da despedida final. Após contribuir para a disseminação do futebol nos Estados Unidos com 37 gols em 64 jogos pelo New York Cosmos, Pelé decidiu que era hora de fechar o ciclo.

Em 1º de outubro, no Giants Stadium de Nova York, diante de mais de 75 mil espectadores, aconteceu uma partida que parecia mais uma celebração do que um amistoso. De um lado, o Cosmos; do outro, o Santos, as duas equipes de sua vida.

O Rei jogou um tempo com cada camisa, primeiro a do Cosmos e depois a do Santos. Quando deixou definitivamente o campo, o futebol se despediu de um de seus maiores intérpretes.

Ele tinha trinta e seis anos, 1281 gols marcados segundo os cálculos totais, 757 gols em 816 partidas oficiais, com uma média de gols de 0,93 gols por partida e um legado que nenhum número jamais conseguirá medir completamente.

Ele se tornou uma celebridade internacional, um símbolo do Brasil, uma marca global. Frequentava chefes de estado, artistas e estrelas de cinema. Nenhum outro atleta conseguiu transitar com tanta naturalidade por mundos aparentemente distantes entre si.

Anos depois, ele sintetizaria assim: “Pelé é imortal. Pelé é um ídolo. Você pode perguntar a qualquer um no mundo se já ouviu falar de Pelé. Ninguém jamais dirá não”.

Até Hollywood percebeu isso. Em 1981, ele participou de ‘Fuga para a Vitória’, o filme que reuniu estrelas do futebol e do cinema na tela. Ao lado de Sylvester Stallone, Michael Caine e Bobby Moore, Pelé presenteou o público com uma das cenas mais memoráveis da história do cinema esportivo.

A bicicleta perfeita com a qual ele marca o 4 a 4 final, interpretando o cabo Luis Fernández, tornou-se uma imagem atemporal. Antes de filmar a cena, o diretor John Huston lhe disse: “Temos quilômetros e quilômetros de filme, você poderá tentar quantas vezes quiser”. E ele respondeu: “Não se preocupe, preciso apenas de alguns metros”. Bastou a primeira tomada.

Aquele gesto icônico e belo contribuiu para alimentar seu mito, mesmo para aqueles que nunca haviam visto um jogo do Santos ou da Seleção. Mais uma vez, Pelé ultrapassou as fronteiras do futebol.

Fez isso também na política, tornando-se ministro do Esporte e tentando combater a corrupção que sufocava o futebol brasileiro. Para o Brasil, foi um símbolo de redenção. Para o futebol, um embaixador. Para o mundo, uma das primeiras celebridades verdadeiramente globais.

No final do século XX, também vieram as consagrações oficiais. FIFA, COI e IFFHS (Instituto Internacional de História e Estatística do Futebol) o nomearam ‘Jogador do Século’. Mas o mundo já sabia quem era Pelé há muito tempo.

Sua morte, em 29 de dezembro de 2022, após uma longa doença, encerrou a vida terrena de um craque lendário, mas não o seu mito universal. No Brasil, foram proclamados três dias de luto nacional, enquanto milhões de pessoas em todo o mundo lhe prestaram homenagem.

Aquele menino chamado Dico não existia mais. Mas Pelé continuava a viver.

Afinal, Jorge Valdano estava certo: quando O Rei jogava, nunca estava claro se ele subia da terra ou descia do céu.

By Federico Santoro

Federico Santoro, dal cuore di Roma, trasforma ogni evento sportivo in una narrazione avvincente. La sua voce distintiva nel racconto delle partite di basket e calcio ha creato uno stile unico nel panorama giornalistico italiano. Le sue analisi tattiche sono apprezzate sia dagli appassionati che dai professionisti del settore.

Related Post